segunda-feira, 25 de maio de 2009

Veríssimo


A era dos centauros


O xadrez é um jogo violentíssimo. Parte do tempo em que parece estar pensando no seu próximo lance o jogador de xadrez se dedica a imaginar o que faria com o adversário e sua família se não precisasse se controlar. Coisas envolvendo machadinhas e óleo fervendo no ouvido. A única coisa comparável ao xadrez em violência é o polo jogado por mongóis, em que dois times a cavalo disputam a posse de um cabrito através de vastas extensões de estepes, muitas vezes arrasando cidades inteiras no caminho. O polo mongol é o xadrez sem o autocontrole.


Outro jogo violentíssimo é o tênis. Pouca gente sabe que na sua forma original o tênis consistia em dois jogadores se dando raquetaços até um morrer ou pedir água. Só muito depois os ingleses inventaram a bola e a rede para manter os jogadores separados, mas o instinto assassino de parte a parte continua o mesmo. Já um esporte civilizado é o boxe. Não há notícia de jogadores de xadrez ou de tênis se abraçando efusivamente depois de uma partida como acontece com lutadores de boxe, que continuam amigos depois da luta, mesmo porque passaram a maior parte do tempo abraçados.


E o futebol? É uma mistura de xadrez e de boxe. Na defesa um time de futebol depende da exata colocação das suas peças, como no xadrez, mas, como no xadrez, estas peças distribuídas com aparente racionalidade devem sugerir algo de polo mongol na sua truculência e poder de intimidação. No ataque, o futebol depende do máximo aproveitamento de brechas, como no boxe. Ajuda se os jogadores de defesa odiarem a humanidade como os melhores xadrezistas e os de ataque aceitem ser golpeados sem ressentimentos, como os boxeadores. O vocabulário de um bom atacante está cheio de palavras que jamais devem entrar na vida de um defensor, a não ser em pesadelos: surpresa, criação, fortuito, invenção. Não se imagina sobre o que defensores e atacantes conversem fora de campo. Sobre futebol certamente não é. Um não reconheceria o esporte do outro.


O meio-campo é onde as coisas se decidem no futebol porque é ali que se dá a metamorfose: bons meio-campistas são os que entram nessa área mágica enxadristas e emergem, lá na frente, boxeadores. Todo time precisa ter pelo menos um centauro, metade cavalo mongol, metade poeta, no seu meio-campo. Já que o Tostão decretou o fim do volante de contenção clássico, o ex-cabeça de área, no nosso futebol, começa a era dos híbridos de luxo: jogadores que combinem a força bruta do xadrez com a dexteridade intelectual do boxe.

4 comentários:

Anônimo disse...

Braña:

Meu passa tempo favorito e ler e escrever. Leio quase todos os blogs aqui do nosso Acre, alguns iguais os seu eu "bato palma". E outros me da dor de estomago, aqueles que só estão para desqualificar as virtudes dos outros.

Parabéns pelo trabalho. Já o salvei em meus favoritos.

Quanto puder me faça uma visita!!!

Abs.

Blog do Braña disse...

Obrigado.

Anônimo disse...

Isso foi muito, muito foda.
Sou do ES e encontrei seu blog por acaso, fazendo uma pesquisa sobre blogs de Rio Branco. Não posso passar por aqui sem deixar meu comentário.

Estudo jornalismo. Ainda vou escrever coisas como esta.

Blog do Braña disse...

Abç, Marcel.