segunda-feira, 27 de abril de 2009


Cotidiano



Vale à pena ler o texto do Dimenstein de domingo, que, na Folha, sempre foi o meu jornalista preferido dos anos 80 e 90.


Quem quer ser um político?




Por GILBERTO DIMENSTEIN



NA QUARTA-FEIRA passada, o rapper Afro-X cumpriu seu último dia de uma pena de 14 anos -sete deles no Carandiru e o restante em liberdade condicional- por assalto à mão armada. Comemorou a data lançando uma autobiografia, intitulada "Ex-157", para tentar explicar como um jovem é seduzido pelo crime. Entre as inúmeras razões, segundo ele, destaca-se o político brasileiro. "Eles transmitem a sensação de que o crime compensa. São tantas as acusações e parece não acontecer nada."

Afro-X escreveu o livro para mostrar que, pelo menos para os pobres, a criminalidade invariavelmente acaba em três "C"s: cadeia, cadáver ou cadeira de rodas. "Quando entrei para a bandidagem, tinha certeza de que, com minhas armas e dinheiro, sempre ia me safar."
Uma pesquisa realizada pelo Datafolha no ano passado mostra que essa visão é disseminada em toda a juventude brasileira, rica ou pobre -e acaba provocando um descrédito à democracia, ojeriza à política e até tolerância com a desonestidade. Na visão dos brasileiros entre 15 e 25 anos, a desonestidade, segundo o Datafolha, está em primeiro lugar, empatada com a violência, na lista dos maiores problemas brasileiros. Vence, com folga, o desemprego e a miséria.

Essa pesquisa é especialmente valiosa diante da enxurrada de notícias sobre desvios que se acumularam nas últimas semanas. Quanto menor a mazela, mais compreensível pelos cidadãos -e, por isso, gera ainda mais indignação. Misturam-se num só saco abusos com passagens áreas que envolveram de Adriane Galisteu a Fernando Gabeira, em meio a denúncias de que gabinetes de parlamentares negociavam bilhetes como se fossem agências de viagem.

Revelou-se que estudantes de famílias ricas foram beneficiários das verbas do Prouni -algumas delas teriam carros importados. Um ministro é acusado de ter um motorista particular pago pelo Senado; um deputado manteria sua empregada doméstica na folha de pagamentos da Câmara. Para completar, o presidente do Supremo Tribunal Federal é acusado, em atrito durante uma sessão transmitida ao vivo, de ter capangas em terras do interior do país.

Todas essas notícias, recorrentes há tantos anos, ajudam a explicar a mais trágica das respostas dos jovens ao Datafolha: 74% não têm "nenhum" interesse em participar dos partidos. Outros 18% disseram que teriam "pouco" interesse.

A pergunta óbvia: como poderemos ter uma democracia representativa se a elite do país não se interessa pelos partidos? Se a percepção dos jovens, como demonstra a pesquisa, é a de que a atividade política está atolada irremediavelmente na lama, quem se interessaria em ser deputado ou senador? Talvez aqueles interessados em tirar proveito da vida pública? Entraríamos num círculo vicioso em que os honestos não fazem política porque seria um campo dominado por ladrões -mas, sem os sérios para ameaçá-los, os picaretas não correriam risco de perder suas vagas.

Estamos metidos num impasse que apenas um segmento pode liderar: os próprios políticos. Mas, por enquanto, pouca gente, especialmente jovem, parece disposta a ouvi-los.

PS - Morei 13 anos em Brasília, onde vivem os bastidores da política. Não acredito que a situação esteja pior do que antes. Não é a política que ficou mais ou menos desonesta, mas o país que ficou mais atento.

Disseminaram-se, em todos esses anos, vários mecanismos de controle, ampliados pelas novas tecnologias de informação. Antigamente, havia diversos orçamentos, com imensa liberdade de ação ao Executivo.

A farra dos bancos oficiais e das estatais era várias vezes maior do que hoje -até porque havia mais bancos e estatais. O Ministério Público só ganhou poderes, de fato, na democracia.

Criaram-se marcos históricos como a Lei da Responsabilidade Fiscal. É muito mais fácil hoje acessar, destrinchar e divulgar detalhes das contas públicas.

O sistema democrático fez muito mais para controlar os recursos públicos, denunciando e até punindo falcatruas, do que o regime militar. Foi nesse ambiente que se conseguiu compatibilizar liberdade, estabilidade econômica e crescimento com um início de distribuição de renda.

Essa parte da história, feita por políticos sérios, também precisa ser contada, para que os mais jovens não desacreditem da democracia e da política.

sábado, 25 de abril de 2009

foto: Reuters

Cravos
portugueses



'Passaram 35 anos, 420 meses, 1826 semanas, 12784 dias ou 306816 horas. Este é o tempo de liberdade que Portugal já viveu desde a Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974. Não demoraria 20 anos para mudar o mundo' [DN].


Neste sábado, 25, comemorou-se em Portugal o Dia da Liberdade. Em 74, nesta data, um movimento de militares pôs fim à ditadura de Marcelo Caetano, a continuação, pode-se afirmar - da ditadura de Antônio Salazar, que começou na década de 20.


E os cravos?


Essas flores foram dadas aos soldados, que a puseram no cano de suas armas.


E assim virou a Revolução dos Cravos.

quinta-feira, 23 de abril de 2009


Joaquim Barbosa

Eu já o admirava. A partir de agora vou admirá-lo ainda mais o ministro do STF, Joaquim Barbosa. Honrou o cargo que ocupa. Nem tudo está perdido no Brasil.

Leia embaixo a matéria do 'Jornal da Globo':

Oito ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) divulgaram uma nota na noite desta quarta-feira (22) em que reafirmam a confiança e o respeito pelo presidente do STF, Gilmar Mendes, após a discussão entre ele e o ministro Joaquim Barbosa.

O STF julgava a partir de quando passaria a valer a decisão que tirou os funcionários de cartórios no Paraná do regime de previdência do estado. A discussão começou quando, irritado, o ministro Joaquim Barbosa disse que a questão não tinha sido debatida suficientemente.

Barbosa: “eu acho que o segundo caso prova muito bem a justeza da sua tese. Mas a sua tese, ela deveria ter sido exposta em pratos limpos. Nós deveríamos estar discutindo”.

Mendes: “ela foi exposta em pratos limpos. Eu não sonego informação. Vossa Excelência me respeite. Foi apontada em pratos limpos”.

Barbosa: “não se discutiu a lei”.

Mendes: “se discutiu claramente”.

Barbosa: “não se discutiu”.

Mendes: “se discutiu claramente e eu trouxe razão. Vossa Excelência... talvez Vossa Excelência esteja faltando às sessões”.

Barbosa: “eu não estou...”.

Mendes: “tanto é que Vossa Excelência não tinha votado. Vossa Excelência faltou a sessão”.

Barbosa: “eu estava de licença, ministro”.

Mendes: “Vossa excelência falta a sessão e depois vem...”.

Barbosa: “eu estava de licença. Vossa Excelência não leu aí. Eu estava de licença do Tribunal”.

Outros ministros passaram a debater a ação. Mas poucos minutos depois a discussão áspera entre os dois recomeçou.

Mendes: “se Vossa Excelência julga por classe, esse é um argumento...”.

Barbosa: “eu sou atento às consequências da minha decisão, das minhas decisões. Só isso”.

Mendes: “Vossa Excelência não tem condições de dar lição a ninguém”.

Barbosa: “e nem Vossa Excelência. Vossa Excelência me respeite, Vossa Excelência não tem condição alguma. Vossa Excelência está destruindo a Justiça desse país, e vem agora dar lição de moral em mim? Saia à rua, ministro Gilmar. Saia à rua, faz o que eu faço”.

Carlos Ayres Britto: “ministro Joaquim, nós já superamos essa discussão com o meu pedido de vista”.

Barbosa: “Vossa Excelência não nenhuma condição”.

Mendes: “eu estou na rua, ministro Joaquim”.

Barbosa: “Vossa Excelência não está na rua não, Vossa Excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. É isso”.

Britto: “ministro Joaquim, vamos ponderar”.

Barbosa: “Vossa Excelência quando se dirige a mim não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar. Respeite”.

Mendes: “ministro Joaquim, Vossa Excelência me respeite”.

Marco Aurélio Mello: “presidente, vamos encerrar a sessão?”.

Barbosa: “digo a mesma coisa”.

Marco Aurélio: “eu creio que a discussão está descambando para um campo que não se coaduna com a liturgia do Supremo”.

Veja a discussão aqui


terça-feira, 21 de abril de 2009

Os bobos de Xapuri


Duas notinhas:


A primeira.


Dias desses, eu e minha mulher Diana descíamos a Getúlio Vargas – era um final de semana, se não estou errado – e vimos um casal de turistas saltando de um carro bem em frente à Casa Natal.


Quando desceu do veículo o homem avistou a estátua do Chico Mendes e começou a pular de alegria, a esfregar as mãos. Parecia que nem acreditava que estava se aproximando do maior líder de seringueiros que o Acre, o Brasil, e o mundo já viram. Mal pode esperar a sua companheira atravessar a rua tal era sua ansiedade em ver de perto, mesmo que em bronze, o acreano que ajudou a mudar a agenda do mundo.


Eu e Diana seguimos felizes da vida de sermos do Acre. Ganhamos o dia.


A segunda nota, é chocante.


Meu filho João Lucas, um jovem de 18 anos - ia passando por um desses restaurantes de beira de esquina da capital, vestindo uma camiseta com a imagem de Chico Mendes, quando uns caras que almoçavam o chamaram e se apresentaram como ‘moradores de Xapuri’. Perguntaram a ele por que usava aquela blusa.


Antes de meu filho esboçar alguma reação e responder qualquer coisa os bobos de Xapuri começaram a enxovalhar Chico Mendes, o acusando de absurdos que nós todos já estamos acostumados a ouvir e a não dizer nada, na maioria das vezes. O nível dos argumentos usados para intimidar meu filho foi muito baixo. Resultado: isso confundiu ou pelo menos fez meu filho me questionar sobre quem tinha sido mesmo Chico Mendes.


Falei a ele que os ataques a Chico Mendes fazem parte de uma luta política que se trava no Acre e na Amazônia atualmente – hoje com mais intensidade. Uma luta ideológica. E que essas pessoas que o abordaram, esses bobos de Xapuri [não sei se são mesmo de lá] não sabem ou não querem reconhecer a importância de Chico para o Acre, o Brasil e o mundo. Independente dos seus problemas que teve como pessoa – bastante ressaltados pelos bobos de Xapuri – Chico Mendes ajudou o Acre a chamar à atenção para o problema do ambiente. E, que, mesmo assassinado pelos opositores da floresta ele continua ajudando o Acre a seguir em frente. O Acre mudou graças a Chico Mendes. Não é frase feita. É fato.


Constato ainda que esses adversários do ambiente, defensores do modelo rondoniense de ‘prosperidade’, estão se agigantando no Acre. Meu filho ficou em dúvida depois dessa conversa com esses reacionários – seriam trogloditas? - de Xapuri.


Por fim, disse a meu filho que ele precisava estudar mais esse assunto para entender melhor sobre as necessidades do planeta e dessa luta ideológica, política, que se trava no dia-a-dia aqui no Acre e na Amazônia.


Sinceramente: fiquei preocupado que pessoas que se dizem de Xapuri ainda não conseguiram compreender o significado de Chico Mendes para as suas vidas e a vida no Acre. Para esses o que valeu mais foi a vida pessoal, repleta de ‘defeitos’ que Chico Mendes possivelmente levou enquanto estava vivo. A causa e a bandeira que ele empunhou, essas, não valeram absolutamente nada para os bobos de Xapuri.


Decidi: vou comprar uma camiseta com a imagem de Chico Mendes.




O amigo Sérgio Souto viu a foto da menina que faz pão e lembrou de uns versos e enviou...tá aí embaixo
.


Olhos d'alma



Por Sergio Souto


Há um rio
cor de caque


Uma curva turva
de silêncio


Curumins de Deus
pastoram o templo


Abandono
paraiso sem dono.


Há um sol
brilhando intenso


Luz de zinco
Um verde denso
Nos olhos d'alma.


Barrancos, troncos
solavancos


Carapanãs de fazer
Curupira pular dos tamancos.


Santa Rosa do Purús
Grita a tua voz
Por este mar
De floresta e luz.


domingo, 19 de abril de 2009

sábado, 18 de abril de 2009



Garagem do Faustão


O acreano\paulistano Sérgio Tabu, o nosso Taboada, está de volta a sua luta para emplacar uma música no programa da Globo.


Clique aqui e assista, e depois vote na música 'Vida Engarrafada'.


Boa sorte, Tabu!